Sinto que devo virar as costas a tudo o que tem regido minha vida ultimamente. Valores trazidos à cega, pessoas trazidas à cega, pensamentos farpados... E reconstruir meu dia-a-dia, me reencontrar. Quero o toque suave do sol recém-nascido batendo no meu rosto, cabeça fresca para um novo começo. Preciso encontrar a origem do primeiro movimentar, do primeiro impulso duro, seco - objetivo. E além disso, sensibilizar-me verdadeiramente por esta vida que é minha.
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
domingo, 24 de julho de 2011
Fragilidade
Nossa. Havia já muito tempo que eu não me sentia tão assim, à flor da pele, a explodir! Suportar o peso da existência exige muita paciência, exige muito compromisso, exige toda uma moral e um comprometimento que sinceramente às vezes está além de mim. Talvez suportar não é a palavra certa, eu descubro que eu não quero ter as morais que me são exigidas a todo o instante. Eu quero crescer como uma árvore bruta e radiante, receber os raios de sol e refleti-los mesmo que esteja com as raízes em solo seco e trincado. Que se foda, eu racharei até a mais teimosa das argilas do serrado, eu quero a sequência, ser cobra sucuri nadando contra o rio caudaloso, ser humano e descobrir o mundo de forma livre, sem amarras. Não quero amarras!
Porém há uma racionalidade construída com o meu desejo de liberdade - racionalidade diferente dessa dominante - que me envolveu de forma perniciosa e tenta me levar à destruição. É um caminho aberto que escolhi a princípio e pavimentei a olhos cegos...Até me ver a frente de um precipício e SINCERAMENTE: quero voltar. Será essa a única trilha capaz de me tirar da estrada principal, esburacada e fétida e encardida que a grande maioria dos meus conterrâneos estão felizes a caminhar? Eu quero uma trilha contínua, quero a travessia! Não quero ser tragado por uma força alheia a mim, jamais! O que eu mais quero é ser dono dos meus passos, ser realmente livre e feliz. Não me importarei em dar passos maiores que os pés, quero mais é tentar voar, rir dos tombos e praticar meu equilíbrio. Não quero me entregar à tudo o que está construído e que eu não concordo e não quero manter - nem com um olhar, nem com um aceno, e muito menos com conivência no meu mais íntimo ser. Há falta de sentido neste dia a dia, nestas cidades, mas não quero me abandonar a veredas perigosas, capazes de explodir minha frágil sanidade. Quero voltar a ser o dono de mim e da minha tristeza - abandoná-la sempre que possível, com um grande cuspe em sua cara. Quero deixar de ser tão sensorial, tão suscetível a pensamentos oblíquos - quero toda a força para jogar fora aquilo que me afunda e pesa nas minhas costas.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Soneto da Separação - Vinicius de Moraes
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez de amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
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Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez de amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Consolo na Praia.
"Vamos, não chores
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
(...)
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te goupearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
(...)
Tudo somado, devias
Precipitar-se, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho."
Carlos Drummond de Andrade.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
(...)
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te goupearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
(...)
Tudo somado, devias
Precipitar-se, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho."
Carlos Drummond de Andrade.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
"- Não farei um movimento para afastar os cadáveres que juncam as águas do lago não farei um movimento para conduzir o barco em direção ao sul pois sei que existem ventos e que os ventos sopram sei que se uma folha bater de leve no meu rosto eu a esmagarei feito mosca e sei que se houver cirandas pelas margens eu matarei as crianças sei do meu ser de faca sei do meu aprendizado de torpezas sei do que há no fundo desse lago e sei que você não o tocará porque a superfície não o revela e será mais fácil para o seu gesto afastar os cadáveres que juncam as águas do teu próprio lago e movimentar o barco a favor do vento e acolher as folhas que baterem em teu rosto e ouvir as cirandas e sorrir para as crianças paradas nos beirais sei da tua forma de chegar à morte sei da minha forma de chegar à vida e sei que não te tocarei no campo de trigo atrás de tua face e sei que não tocarás na ponta de faca atrás da minha face e sei do nosso mútuo assassinato e sei da nossa insaciável fome de carne humana porém te digo que este meu ser inaparente este meu ser é de faca e não de flor."
Mas apenas e antigamente guirlandas sobre o poço, Caio Fernando Abreu.
Mas apenas e antigamente guirlandas sobre o poço, Caio Fernando Abreu.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
"Tirou o chapéu e olhou-se ao espelho. Já nem tinha forças para sentir-se esgotada; não lamentava a perda de uma amizade impossível, nem sentia o mínimo rancor contra Pierre. O máximo que podia fazer era salvar pacientemente, tristemente, os pobres restos de uma vida de que outrora tanto se orgulhava."
"As ruas tinham perdido as recordações e as promessas que outrora prolongavam sua existência até o infinito. Hoje eram apenas, sob um céu incerto com breves rasgões de azul, simples distâncias que era preciso atravessar."
- A convidada, Simone de Beauvoir.
"As ruas tinham perdido as recordações e as promessas que outrora prolongavam sua existência até o infinito. Hoje eram apenas, sob um céu incerto com breves rasgões de azul, simples distâncias que era preciso atravessar."
- A convidada, Simone de Beauvoir.
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